Sobre a Natureza do Caminho – parte I

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A cidade de todos os dias durante a quarentena: Santo André, São Paulo, Brasil – projeto “Alento”: https://acsvb.wordpress.com/portfolio/alento/

Caminho pelos mesmos limitados trajetos, 

em círculos, 

em ângulos retos, 

em zigue-zague, 

subindo e descendo (e vice versa), 

numa jornada que se repete a cada novo dia, 

que me traz – primeiro – para dentro de mim

para – depois – sair, sem planos, à deriva, 

buscando compreender

– mas o que?

Neste movimento contínuo 

de um vai e vem sem fim, 

[dentro e fora, 

claro e escuro, 

quente e frio, 

inspira e expira, 

grande e pequeno,

luz e sombra,

imanência e transcendência (e mais)]

– percebo que não ouso mais olhar para o chão. 

E – com os pés enraizados – 

busco novas perspectivas, 

num caleidoscópio multicolorido, 

com texturas suaves, 

com possibilidades infinitas,

com um movimento contínuo,

com uma força pungente 

que me eleva, 

que me conduz 

– para o alto. 

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Tornando Visível o Invisível

Parte I – O que estava “invisível”

O meu “objeto” tem vida. 

É um “ser” que viaja facilmente através do ar, de tão leve que é constituído.

Sei que é macio, mesmo sem tê-lo tocado. 

E pode ser de diversas cores. O que encontrei era branco. 

Na verdade, são três “objetos”. 

Todos com hastes longas e na cor verde, com partes escondidas, sustentando as partes brancas e redondas, visíveis para quem enxerga. 

E há, também, uma terceira parte, esta em tom amarelado, bem no seu centro, no seu núcleo de onde é gerado o que é branco. 

Cabem os três facilmente na palma da minha mão, mas preferi nem me aproximar muito deles, para evitar que se desfizessem com o meu toque, por mais delicado que fosse, ou com vento que soprava no momento em que os avistei e, também, poderia haver o risco de desprendimento entre as suas pequeninas partes com o ar da minha respiração.

São “objetos” facilmente associados às minhas lembranças da infância. 

Recordo-me muito bem quando, em brincadeiras de criança, fazíamos pedidos antes de assoprar sobre este “objeto”, a fim de ter os desejos atendidos. 

É um”objeto”, então, associado à esperança. 

Parte II – O que se tornou “visível”

Estes “objetos” me saltaram aos olhos quando eu menos esperava. 

Eu buscava encontrar algum objeto esquecido ou deixado, de modo despropositado pelo caminho que eu passava, pelos cantos, pelos bancos, sobre os muros, seguindo o percurso que tenho feito cotidianamente há mais de 100 dias durante esta quarentena estendida aqui no Brasil. 

Percurso que faço correndo, raramente caminhando. E, enquanto corro, noto facilmente o desgosto do barulho de carros e de tropeçar nas pedras que soltam no calçamento com mosaico português, mas noto também a beleza “maior” do espaço, com árvores com folhagens em diversos tonalidades, com o belo jardim projetado e bem cuidado e também nos pássaros que sobrevoam o local nas primeiras horas do amanhecer, quando mais gosto de correr. 

No entanto, admito que não reparo nos detalhes. Não me vejo capaz de prestar atenção naquilo que está timidamente ali também existindo, em sua discrição. 

Saí, portanto, para caminhar hoje a tarde, num outro ritmo, numa outra temporalidade, na intenção de direcionar o meu olhar para as coisas pequenas e, de fato, procurando aquilo que  pudesse estar ali, naquele mesmo espaço e percurso, enquanto objeto deixado, esquecido por alguém, e que pudesse me suscitar algum interesse em recolhê-lo/registrá-lo para desenvolver a proposta desta oficina. 

Mas isso não aconteceu. Não encontrei nada além do mesmo jardim, das árvores imponentes com folhagens em diferentes tons de verde, do barulho intenso dos carros, do calçamento com o mosaico português e com as suas pedras se soltando e provocando tropeços aos transeuntes. 

Enfim, nada mais do que o mesmo que vejo todos os dias. 

A não ser com uma diferença. 

Havia sim um detalhe a ser reparado e registrado. Mas não para esta oficina. Pois trata-se de um detalhe que me entristece e, ao contrário disso, eu me propus identificar algo que me despertasse alegria. 

Eu encontrava apenas papéis, sacolas e garrafas plásticas, maços de cigarros no chão, nos cantos, nos bancos e sobre os muros. 

E nada esquecido ou deixado para trás como uma memória a ser reconstituída através da imaginação ou, também, uma história inventada a partir do significado que eu pudesse atribuir. 

Assim, numa nova volta caminhando pelo percurso onde estou correndo nos últimos 100 dias, identifiquei o que eu gostaria de registrar como significativo para mim, que caberia na palma da minha mão, que traria um sentimento de alento e também de afeto. 

Algo que parece invisível a um olhar distraído, pois estas pequeninas flores, popularmente chamadas de dente-de-leão, florescem habitualmente durante a primavera. Mas estavam ali, em pleno inverno, apenas as três florzinhas, resilientes e bem próximas ao caminho em que tantas pessoas passam e nem percebem, como se estas flores quisessem me lembrar de que, em pequena escala, é possível também haver encantamento, memórias, experiência com o belo, com a vida manifestada e a esperança renovada continuamente em lugares e em momentos inesperados.

A cidade de todos os dias durante a quarentena: Santo André, São Paulo, Brasil – projeto “Alento”: https://acsvb.wordpress.com/portfolio/alento/

*Texto originalmente escrito como contribuição para uma das Oficinas do Andar intitulada “Palma da Mão”, proposta por Ana Willerding, durante o evento Drifting Bodies/Fluent Spaces em Guimarães, Portugal, entre os dias 22 e 24 de Julho de 2020.

Ana Willerding – Palma da Mão

 

 

 

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Living in deep listening

Morning run on July 18, 2020. Santo André, São Paulo, Brazil. 

It was a wonderful celebration on World Listening Day, crossing a desert for more than 100 days to reach out the paradise on Earth.

All the parks closed in this city of stones, in a seemingly everlasting quarantine, with non-rational governmental directions, neither empathy for the poorest and vulnerable population. But today, the parks were reopened with restrictions and I was there early with all my senses awake – beyond the vision – to re-encounter the Nature. And I was greeted for a kind of Orchestra which can be listened accessing the following link:

https://map.opensourcesoundscapes.org/area-detail/4044

It happened during my morning run when I did some pauses, and I closed my eyes and felt completely immersed in that place. So, I recorded sounds surrounding me, I took a shot of the spot where I was standing and answered a survey using the highly recommended tool for mapping quiet areas in cities, Hush City App.

I wish that even during these (pandemic) dark times, lights can brightly shine over the path and driving us toward better days ahead. For thus, quiet places are welcome to our global health, to remember us about our essence, about the inexorable connection with the Earth, searching for balance even among adversities. It also means searching for ways to build a new society which value its memories,  people, history, culture, reinforcing social ties, valuing public spaces, social interaction, quality of that places, valuing the wellbeing of all the communities that make up the society in a continuous deep listening of all beings that coexist between land and sky.

*To know more about the Hush City Map Project, click below:

Hush City Mobile Lab (2018-2020)

 

 

 

 

 

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Runner’s Heart


Drawing almost always the same red lines 

with my body on the overlaid ground

in connection with the Cosmos: following the direction of the stars.

 

In a connection between land and sky;

in another scale;

in a small physical distance: I feel able to run a long journey with my suspended mind.

 

[And what happens?]

 

I just unfold a hidden layer from the essence of life. 


P.S. It is about my own experience of running 6 miles along 3 months practically in the same place with 1 mile of distance each lap necessary to draw the heart, 4 times per week , during the quarantine in Brazil, 2020.
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Gratitude for Life

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I am grateful for wake up each day.

I am grateful for the sensation of running, drawing with my body a heart pulsing on the ground: mine and of the Earth like One.

I feel under my feet the ancestors existence and of all forms of life;

I feel the same air in the air as those who once breathed there;

I feel a continuous flow, each moment intertwined, entangled, connected in a mesh woven by invisible threads among all beings in the Cosmos.

I am grateful for all this.

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Which way I ought to go from here?

Trip between Ghent and Amsterdam. December, 2019.

Num caminho sem rota definida, sigo perdida entre um caminho e outro e, no entremeio, sinto a vida. E, mesmo sem rumo, solta no fluxo, solta no movimento, na transitoriedade que, com ele – somente com ele – continuo, caminho. 

Entre idas e vindas, um redemoinho se forma e forma nós nos cabelos, eriça os pelos, entrelaça os já imperceptíveis fios que insistem em se manter e que machucam.  É a dor do tempo, do espaço, do fuso horário. A angústia da invisibilidade, da insensibilidade da pele, da saudade do som do ronco, do seu mau humor, depressão, daquela tristeza no olhar. 

Sinto, entre as viagens sem metas, o pulso constante entre altos e baixos, luzes e sombras, estagnação e, na sequência, a aderência dos corpos, a magia do toque, o alinhamento entre o Sol e a Lua, o ar que entra e sai pelas narinas, o odor dele, aquilo que exala de mim, o que o envolve, o que me transforma, o que encanta e cede.

Escuto o silêncio entre vozes e ruídos, fecho os olhos e vejo, a trepidação dos trilhos, e, com ele – sempre com ele – o caminho é feito – passo a passo, num infinito que é cíclico, que exige atenção, que exige paciência, que necessita de sonhos e da espera – de esperança – de ser: apenas ser.

E, assim, se faz o caminho – seja lá qual for. 

 

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Unidade Cíclica

Tao


Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do tao, todos os dias algo é deixado para trás.

E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.

Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.

Tao Te Ching (道德經), Cap. 48


Quando se vive sem sentir que há começo, meio ou fim, 

é um viver cíclico, como os antigos concebiam o tempo. 

A história que parece confusa, é então, difusa

numa trama de fios de seda, finos finos finos.

[que sacrificam mariposas 

que furam os olhos da serpente 

que decapitam a bela que sorri e sente]

Viver num horário definido por uma lógica inventada 

interferindo nas leis da natureza. 

Uma hora aqui, cinco horas a mais ali

como se dá, então, a realidade?

[se lá já aconteceu, aqui ainda começa o dia 

e lá já é meio dia, aqui é ainda café da manhã

sobre as nuvens, sob as estrelas e planetas e o Sol que brilha]

Existo por qual motivo? 

Milagre manifesto, benção de deuses?

O Céu, a Terra, as Montanhas, os Lagos, os Ventos, os Trovões, o Tempo:

Entre uma coisa e outra, existo. 

Transito entre; na constância de.

Coração pulsa, sangue vibra, lágrimas brotam. 

[E é apenas mais um novo e surpreendente dia]

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Unity


When you live without feeling that there is a beginning, middle or end,

it is a cyclical living, as the ancients conceived of time.

The story that seems confusing is, then, diffuse,

in a web of silk thread, fine thin fine.

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Listening with the feet

 

Prespes, Florina, Greece – July, 2019.


The practice of writing, so vivid long ago,

Today, asleep.

Attempts in vain, even in Portuguese!

The tongue curled.

English? French?

Nothing, nothing.

But, then, what was left for me?

There was silence – and the ears opened!

Extended listening in an augmented reality,

Attentive and dazzled.

In the “Wild Dream” of Prespes.

[Seeing with my ears,

Walking on the waters,

Listenting to the ground,

Crossing a triple border].

I create my own language…


 

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Steps & Consciousness

ldna

My training of today, Londrina, Paraná, Brazil.


A gap between my last writing and my return to the daydreams around the experience of running to beyond physical activity.

After a sabbatical year, recovering from a foot injury, I return to training for a new marathon, with a new body and a new focus.

I bring within me the foundations of the first texts, but with a march less in each step … slow pace, careful redoubled, to continue to run, without limits, step by step, in a mismatch of the frantic life of my day to day.

In the slowness of my movement, I still bring the practice of yoga, tai chi, conscious breaths. I perceive the environment around me more clearly, making my running become a rediscovery of life itself.

In an autobiographical sense, I retake my traces, replay the videos, silence and sounds of Chris Lynn and other inspirational sources as a way to extravasate what exists in a body with an affected sensitivity, that moves from one side to another, in a direction random, running adrift, discovering the path precisely … at every conscious step.

*I am training for my 6th Marathon, in June, Porto Alegre, Brazil. 

 

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